mardi 25 décembre 2007

A escrita transforma a coisa vista ou ouvida ‘em forças e em sangue’

trata-se, não de perseguir o indizível, não de revelar o que está oculto, mas, pelo contrário, de captar o já dito: reunir aquilo que se pôde ouvir ou ler, e isto com uma finalidade que não é nada menos que a constituição de si. ... a prática de si implica a leitura, pois não é possivel tudo tirar do fundo de si próprio ... Mas não se deve dissociar leitura e escrita; deve-se ‘recorrer alternadamente’ a estas duas ocupações, e ‘temperar uma por meio da outra’ Se escrever demais esgota ... o excesso de leitura dispersa ... A escrita, como maneira de recolher a leitura e de nos recolhermos sobre ela, é um exercício da razão que se opõe ao grave defeito da stultitia que a leitura infindável se arrisca a favorecer. A stultitia é definida pela agitação do espírito ... O papel da escrita é constituir, com tudo o que a leitura constitui, um corpo ... Como o próprio corpo daquele que, ao transcrever as suas leituras, se apossou delas e fêz suas a respectiva verdade : a escrita transforma a coisa vista ou ouvida ‘em forças e em sangue’ (in vires, in sanguinem). Ela transforma-se, no próprio escritor ... Em contrapartida, porém, o escritor constitui a sua própria identidade mediante essa recolecção de coisas ditas.

Foucault, O que é um autor

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