mercredi 26 décembre 2007

Escrever é que nos deixem rir e chorar sozinhos.

Ramón Gómez de la Serna (1888-1963)

mardi 25 décembre 2007

Le Chat

I

Dans ma cervelle se promène,
Ainsi qu'en son appartement,
Un beau chat, fort, doux et charmant.
Quand il miaule, on l'entend à peine,

Tant son timbre est tendre et discret;
Mais que sa voix s'apaise ou gronde,
Elle est toujours riche et profonde.
C'est là son charme et son secret.

Cette voix, qui perle et qui filtre
Dans mon fonds le plus ténébreux,
Me remplit comme un vers nombreux
Et me réjouit comme un philtre.

Elle endort les plus cruels maux
Et contient toutes les extases;
Pour dire les plus longues phrases,
Elle n'a pas besoin de mots.

Non, il n'est pas d'archet qui morde
Sur mon coeur, parfait instrument,
Et fasse plus royalement
Chanter sa plus vibrante corde,

Que ta voix, chat mystérieux,
Chat séraphique, chat étrange,
En qui tout est, comme en un ange,
Aussi subtil qu'harmonieux!

II

De sa fourrure blonde et brune
Sort un parfum si doux, qu'un soir
J'en fus embaumé, pour l'avoir
Caressée une fois, rien qu'une.



Quand mes yeux, vers ce chat que j'aime
Tirés comme par un aimant,
Se retournent docilement
Et que je regarde en moi-même,

Je vois avec étonnement
Le feu de ses prunelles pâles,
Clairs fanaux, vivantes opales
Qui me contemplent fixement.

Charles Baudelaire, Fleurs du mal

Le petit chat


Joan Miro, Le petit chat, 1951

Nada pode ser criado sem a solidão.

Pablo Picasso (1881-1973)
Nunca chega o momento em que se possa dizer: Trabalhei bem e amanhã é domingo. Assim que se pára, começa-se logo outra vez de novo. Pode-se pôr de lado uma tela e dizer que não se lhe volta a mexer. Mas nunca se pode escrever por baixo a palavra FIM.

Pablo Picasso (1881-1973)
Il est pour le moins étrange d’aller chercher le substrat ultime de soi dans l’amour, là où la cohérence et la continuité du soi sont les plus problématiques, là où la nature de notre authenticité se révèle la plus dangereuse et la plus évanescente. ... S’engager sur le travail réflexif du soi dans les liens d’amour c’est juger le besoin d’autonomie et le désire de ce lien. C’est risquer la vulnérabilité et la perte de contrôle émotionnel. Le soi, et les liens sociaux qu’il entretient, sont liés à une grande anxiété autour de la relaxation ou perte de contrôle de la démarcation du soi.

Danilo Martuccelli, Grammaires de l’individu, 2002
L’exercice de l’activité politique est bien une «vie», impliquant un engagement personnel et durable ; mais le fondement, le lien entre soi-même et l’activité politique, ce qui constitue l’individu comme acteur politique, ce n’est pas – ou pas seulement – son statut ; c’est, dans le cadre général défini par sa naissance et son rang, un acte personnel.

Michel Foucault, Histoire de la sexualité III - Le souci de soi, 1984.

A escrita transforma a coisa vista ou ouvida ‘em forças e em sangue’

trata-se, não de perseguir o indizível, não de revelar o que está oculto, mas, pelo contrário, de captar o já dito: reunir aquilo que se pôde ouvir ou ler, e isto com uma finalidade que não é nada menos que a constituição de si. ... a prática de si implica a leitura, pois não é possivel tudo tirar do fundo de si próprio ... Mas não se deve dissociar leitura e escrita; deve-se ‘recorrer alternadamente’ a estas duas ocupações, e ‘temperar uma por meio da outra’ Se escrever demais esgota ... o excesso de leitura dispersa ... A escrita, como maneira de recolher a leitura e de nos recolhermos sobre ela, é um exercício da razão que se opõe ao grave defeito da stultitia que a leitura infindável se arrisca a favorecer. A stultitia é definida pela agitação do espírito ... O papel da escrita é constituir, com tudo o que a leitura constitui, um corpo ... Como o próprio corpo daquele que, ao transcrever as suas leituras, se apossou delas e fêz suas a respectiva verdade : a escrita transforma a coisa vista ou ouvida ‘em forças e em sangue’ (in vires, in sanguinem). Ela transforma-se, no próprio escritor ... Em contrapartida, porém, o escritor constitui a sua própria identidade mediante essa recolecção de coisas ditas.

Foucault, O que é um autor
The longer I live the more beautiful life becomes.

Frank Lloyd Wright (1869 - 1959)

Si le monde social m’est supportable, c’est parce que je peux m’indigner

Trafic d’influences, renvois d’ascenseurs, si tout ça me… me débecte, pour des raisons obscures, c’est sans doute pour ça que je suis lucide. De même, je le dirais à propos de Goffman, ça m’est plus facile que de lire pour moi, Goffman, qui a fait un travail formidable de dévoilement de l’infiniment petit des relations humaines, passait pour méchant, cruel, et simplement c’était quelqu’un pour qui le monde social était très dur à vivre. Si le monde social m’est supportable, c’est parce que je peux m’indigner. Là, j’ai fait des confidences…

Pierre Bourdieu, Si le monde social m’est supportable, c’est parce que je peux m’indigner, 2001

A vida é uma coisa, o amor é outra

Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa não é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo. O que eu quero fazer é o elogio do amor puro. Parece que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Teixeira de Pascoaes meteu-se num navio para ir atrás de uma rapariga inglesa com quem nunca tinha falado. Estava apaixonado, foi para Liverpool. Quando finalmente conseguiu falar com ela, arrependeu-se. Quem é que hoje é capaz de se apaixonar assim? Hoje em dia as pessoas apaixonam-se por uma questão prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão mesmo ali ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato. Por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante sico-sócio-bio-ecológica da camaradagem. A paixão, que deveria ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas em vez de se apaixonarem de verdade, ficam praticamente apaixonadas. Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há. Estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr o risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o medo, o desequilíbrio, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho" sentimental. Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Por onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, fachada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassado ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa a beleza. É esse o perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor é para nos amar, para levar-nos de repente ao céu, a tempo de ainda apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma conveniência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um principio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para se perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita. Não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que se quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar. O amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não está lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar esperança, doer sem ficar magoado, viver sózinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder, não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um minuto de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.

Miguel Esteves Cardoso, Último Volume, Assírio & Alvim Ed., 1996

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